anna moraes

apresentação de Marta Martins

exposição virtual

exercícios

de desenho

 

 

 

apresentação → Marta Martins

Tenho a sorte de ter uma pequena obra de Anna Moraes que vive na minha estante de livros, mas de vez em quando levo a minha micropaisagem a passear, para pegar sol. Levo a paisagem para dentro da paisagem. Levo as microcolinas de papel e de poesia pra ver os morros verdejantes, seus ancestrais. É com esse tipo de obra e de gestos, que “artistas portáteis” [1]como eu mesma e a própria Anna Moraes, fabricamos nossos mundos.

 

Anna dirige seu impulso criador ao desenho. E o faz de forma radical, mergulhando no meio e testando seus limites. Criando procedimentos. Aqui cabe um enfoque especial ao conceito de "procedimento" como uma invenção literária de Raymond Roussel, cuja obra influenciou toda a trajetória do anartista Marcel Duchamp. Décadas depois das operações dos dois vanguardistas, pensamos o procedimento como uma potência e uma forma possíveis de se pensar a criação do presente, dar contornos e criar laços sociais dentro e fora do espaço artístico e literário. A obra de Anna, em si mesma é uma criação de procedimentos e, portanto, ela explicita e revela o segredo sobre como ela se constituiu. O poeta Paul Valéry escreveu que “o infinito, meu caro, é bem pouca coisa; é uma questão de escrita. O universo só existe sobre papel.”  Anna inventa seus universos a partir de métodos, regras e procedimentos para se guiar no percurso em que a cada série segundo as palavras da própria artista os “desenhos não se propõem a se tornarem obras finalizadas, eles dão a ver a regra do jogo que a artista se coloca ao riscar o papel e se materializam em desenho e em título. São no geral apoiados em métodos, quantidades e modos de fazer.” 

 

Há uma experiência de levar a ideia de desenhar como “exercício”, a suas máximas consequências. O desenho é uma errância, um percurso sem volta, uma caminhada sobre o papel onde a linha que foi traçada sempre poderia estar em outro lugar. Mas há por outra via, uma disciplina férrea e a constância da necessidade de traçar rotas sobre uma superfície. Uma marca, uma grafia, uma escrita desenhada, é  inventada e repetida em novas séries (im)possíveis por Anna Moraes.

[1] A expressão “artistas portáteis” é do escritor Enrique Vila-Matas no livro História Abreviada da literatura portátil (SP: Cosac&Naify, 2011), onde descreve o encontro dos “shandys”, escritores e artistas pautados pela conspiração inconsequente, sexualidade extrema,  glorificação da loucura e comportamento insolente., mas sobretudo, pela premissa da portabilidade de suas obras, que deveriam caber sempre numa pequena maleta. Me aproprio aqui da expressão e a uso como apenas  licença poética  não literal.

Marta Lúcia Pereira Martins

 

Marta Martins: (Livramento, RS, 1962) é graduada em Educação Artística pela Universidade do Estado de Santa Catarina (1988), Mestra em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1995) e Doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (2005). É professora no Curso de Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina atuando na Graduação e no PPGAV nas seguintes áreas: Desenho, Teoria da Modernidade, Literatura, Arte Contemporânea, Teoria da Imagem e Fotografia. É artista visual, ensaísta, narradora de ficção e fotógrafa. Foi premiada por Edital da Funarte na categoria de Estímulo a produção crítica, em 2012. Publicou “Narrativas ficcionais de Tunga”, pela Editora Apicuri do RJ em 2013 e “Quase coisa nenhuma”, pela Cultura&Barbárie de Florianópolis em 2018.Fez pós doutorado com pesquisa sobre a poeta e artista visual Ana Hatherly, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em 2018

 
 
 
 

 

 

 

texto → Anna Moraes 

 

Esta exposição apresenta, antes de tudo, exercícios.

 

Como artista visual, tenho pesquisado a natureza do desenho enquanto linguagem, enquanto suporte, enquanto técnica. E, com frequência, me deparo com textos e manifestos que afirmam que o desenho é o lugar da errância, o lugar do meio, o entre-lugar. Dizem que o desenho apresenta vestígios do processo de uma obra em criação, quando não, como registro desse processo. E isso é muito poético e muito indefinido, adjetivos também associados ao desenho.

 

Apresento aqui trabalhos debruçados em possibilidades de entender o desenho enquanto um procedimento, quando ele dá a ver as regras do jogo. Como assim? A tradição clássica dita que obras finalizadas não costumam mostrar como foram feitas, algumas exigem a carga de mistério que o gênio artístico ainda carrega, quando não do objeto artístico e sua aura. Os desenhos daqui não se propõem a se tornarem obras finalizadas, eles dão a ver a regra do jogo que me coloco ao riscar o papel e que se materializam em desenho e em título. São no geral apoiados em métodos, quantidades e modos de fazer.

 

Os trabalhos são:

 

- 1598 círculos dentro de quadrados variando canetas;

- Preenchimentos de não círculos em tentativa de caligrafia circular justificada e variações de escala, e

- 56 tentativas de linha reta enquanto risco o papel girando o giz,

 

Todos eles se definem como desenho sobre papel em diferentes tamanhos, e carregam um gesto   e as regras pensadas antes do desenho para que ele se constitua como o registro de uma ação. É um convite ao espectador para que desenhe também, ou que crie suas regras, desprendidos de segredos ou mistérios do processo de criação.

 

É uma possibilidade de desenho-instrução já realizado.