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História de como matei meu fantasma

São sete e meia da manhã. Acordo com o despertador, caminho até a cozinha e a criança já está saindo para escola. Boa aula hoje, e dou um beijo em sua testa, enquanto ela pega o guarda-chuva e as chaves, saindo pontualmente. Na cozinha, a água para o café começa a ferver enquanto abro as cortinas da sala de jantar. A luz da manhã entra pela janela e ilumina minha pequena mesa de trabalho, encostada no vidro. Lá fora, as árvores altas do parque balançam devagar, criando uma barreira verde entre mim e o movimento da avenida.

Puxo a cadeira - aquela que comprei especialmente para sustentar minha lombar nas longas jornadas em frente ao computador - e me sento. O café já está na xícara ao lado do computador. É aqui que decidi que escreveria mais. Aqui, nesta mesa, eu inventaria histórias, escreveria contos, criaria romances. Algo que eu queria que pudesse talvez ser chamado de literatura.

Penso nos escritores que admirava, aqueles que se instalavam nos bares de Paris com seus cadernos, pediam um café e ficavam ali por horas, escrevendo à mão, a lápis. Faziam pausas apenas para apontar o lápis, e mediam um dia produtivo não só pelas páginas preenchidas, mas pelas aparas de madeira acumuladas sobre a conta do bar.

Ligo o computador. A tela azul se acende, o cursor pisca no documento com várias anotações. Respiro fundo. Hoje vou escrever de verdade. Contos. Romances. Histórias que alguém possa querer ler. Começo pela minha própria vida. A infância, os primeiros amores, as perdas. É como se eu estivesse reencontrando eu mesma, reconhecendo lugares esquecidos. Sujeito, verbo, predicado, pontos, vírgulas, parágrafos. Escrevo até sentir os olhos cansados.

Mas quando leio o que escrevi, isso é íntimo demais, penso, não dá para ser publicado. Seleciono partes, aperto delete, falta coesão. Recomeço. Escrevo. Releio. Deleto. O ciclo se repete.

É na quinta tentativa que o percebo. Eu não estou sozinha.

Paro de digitar. Giro a cadeira devagar. A sala está vazia, mas a sensação persiste - como se houvesse alguém atrás do meu ombro, lendo cada palavra antes mesmo de eu escrevê-la. Volto para a tela, mas agora as frases saem travadas, vigiadas.

Então me dou conta: na verdade ele sempre esteve aqui. Quando desenho, quando escrevo artigos, quando crio. Mas agora que decidi escrever literatura, ele se fez notar.

Meu fantasma.

Com o passar dos dias, ele foi tomando mais e mais espaço. Esse fantasma não me deixa trabalhar. Ele está sempre ali, ele ocupa espaço. Com um sorriso quadrado parece estar sempre me cercando, respirando no meu ouvido para eu ter certeza de sua presença. Ele é muito rápido, corre sempre para estar no lugar onde eu dirijo o meu olhar. Ele preenche todos os espaços, todos os vazios e os silêncios.

Ele nunca está quieto. Se come, bate os talheres no prato, se bebe, faz barulho ao engolir e repousa o copo na mesa com força. Mastiga de boca aberta e tem dificuldade para respirar, sua respiração é forte e está sempre presente. Anda de chinelo arrastando no chão, ele está sempre ali, rodeia a minha mesa, acha a cadeira desconfortável, diz que a mesa está muito bagunçada para começar a trabalhar. Me questiona se devo mesmo começar a trabalhar. Ele abre minha agenda, insere tarefas sem importância, anota que preciso pensar no jantar ou consertar o buraco na parede do banheiro.

Quando estou concentrada ele me chama para ver o cano entupido da pia da cozinha, quando eu volto para a mesa, ele está ali, com a cara feia, medindo a minha mediocridade. Se eu desligo o computador antes da hora, por cansaço ou exaustão, ele segue focado, trabalhando para dar o exemplo, sempre sorrindo de canto, com uma sobrancelha arqueada, como se torcesse pelo meu fracasso ou como se tivesse certeza dele.

 

A verdade é que esse fantasma não sabe de toda a história. E por ser a minha história, eu precisava escrevê-la. Como ele me considera preguiçosa e procrastinadora, ele jamais imaginaria que eu pudesse acordar cedo para fazer qualquer coisa, quem dirá trabalhar. Então ele não conhece a Anna de antes das sete da manhã, já que seu expediente sempre se inicia às sete e meia. Mesmo acordando antes dele,  eu acordo já me culpando por ser tarde, por não ter dado tempo de me exercitar ou de preparar um bom café da manhã.

 

Acontece que coisas grandiosas exigem esforços e eu nunca consegui nada de interessante na minha vida sem que eu tivesse que acordar às quatro ou cinco da manhã. Então, por um longo período, eu acordei nesse horário para trabalhar. E eu, que já sei desenhar e escrever, me coloquei a começar a tecer. E por muitos dias antes do nascer do sol, teci uma rede linda, verde-limão, que quando ficou pronta, instalei eu mesma com a furadeira perto da minha mesa de trabalho. 

 

Não tardou para bater o ponto, o fantasma chegou. Não falou nada. Veio arrastando o chinelo com um copo de café na mão, respingando gotas no chão. Silêncio. Sua boca arqueada e seu olhar me diziam que ele estava se perguntando em que momento eu havia instalado aquilo.

 

Com certeza não se perguntou quando eu havia feito, pois, isso jamais se passaria por sua cabeça. É pra você, eu disse. Sei que anda cansado e por isso eu não avanço muito em meu trabalho, então você pode tirar cochilos. Não que eu pense que você esteja cansado. Ele deu de ombros e seguiu em direção à sacada, me chamando em seguida para regar a planta que estava muito seca. 

 

Passadas algumas semanas, ele cedeu. 

 

Eu já sabia que ia demorar, então fui paciente. Continuei acordando cedo para então escrever. Escrever sem pensar, sem me julgar, sem o fantasma por perto. Escrever como quem tece, linha por linha criando uma trama. Acordava às 4:30 e ainda meio sonolenta escrevia a mão, na cama mesmo. Depois digitava no computador, imprimia para corrigir e revisar. Guardava o manuscrito em uma gaveta, tudo isso antes das 7h e às 7:30, quando ele aparecia, eu ficava fazendo outra coisa. Passava o dia lendo e tomando notas, percebia-o rondando a sala, como costumava fazer para mostrar trabalho. Segui fazendo isso por semanas. E um dia, respirei satisfeita com o volume de escritos que eu já tinha. Folheava o manuscrito em cima da mesa e não percebi que já eram 7:30. Era feriado e a criança não tinha aula, o que me fez perder a noção da hora. Eu o senti respirando por trás do meu ombro, espiando. Hum, disse ele, anda trabalhando fora do expediente? Compromete o sono, hein? Vai ficar com olheiras e passar o dia bocejando. 

 

Dito isso, ele sentou na rede exausto. Era como se ele não pudesse acreditar que o trabalho estava ganhando corpo sem que ele soubesse.  Eu comecei então a embalá-lo como um bebê. No começo, delicadamente, percebi que ele se sentia bem com o ritmo do balanço. O gancho rangia e entregava que o ritmo ia ficando mais e mais acelerado. A rede balançou tanto que começou a chegar cada vez mais perto do teto, mais e mais. 

 

Vi seus olhos aterrorizados, mas ele não pediu para parar. Eu, com toda a força, segui embalando-o até que a rede girou 360°, ficando paralela ao chão, até que em um momento, o fantasma se espatifou de cara no tapete. Ele não tentou reagir, sabia que era a hora de ir embora. 

 

Quando dei por mim, me abaixei e perguntei se ele havia gostado da rede que eu havia feito. Eu mesma. Apenas  deu seu último sussurro antes de desaparecer: Verde-limão? 

 

E eis que o fantasma se foi. Desapareceu da mesma forma que aparecia todos os dias: rápido, sem que eu me desse conta, num piscar de olhos. E por alguns dias vivi o luto de sua ausência. Sem ele eu estava livre e também estava só. As decisões agora eram só minhas. 

Eram os meus verbos, eram os meus horários, minhas responsabilidades.

 

Sem o fantasma eu não tinha a quem culpar pelo meu fracasso. Eu não tinha a quem culpar se eu não estivesse escrevendo, criando, trabalhando. E também eu não precisava mais acordar cedo para escrever escondida dele.

 

Eu estava só, sem fantasma, sem ter que provar nada, sem distrações, com tempo, espaço, cadeira e teto, para criar tudo o que eu quisesse. Confesso que senti medo. Já mataram de tudo na história, para alguns até Deus morreu. Mas a morte do meu fantasma me colocou de frente a um espelho, não para ver minha imagem invertida, mas para enxergar ao longe onde minhas pupilas podem alcançar:  o interior de mim mesma. 

 

Se escrevo para não desaparecer, escrevo sobre esse fantasma, para me lembrar de quem sou. Virgínia Woolf disse que é mais difícil matar um fantasma que uma realidade, e eu não saberia dizer o que sinto de melhor forma.

Marseille, 05 de agosto de 2025

© anna moraes 2025

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